• Bruno Gonçalves

Solstícios e Escrita Reflexiva

Em 2006 participei de uma celebração de Solstício de 21 de dezembro, num ritual andino no meio das montanhas de Cusco a 3600m de altitude.

O jardim da casa que recebeu os participantes era bem cuidado, com cactos variados, e vi-me rodeado de pessoas de diversas nacionalidades. Todos com a intenção de celebrar aquele momento especial de mudança de ciclo. Eu e um amigo chegámos ao final da tarde, mas logo a noite e o friozinho da montanha foram-se aproximando devagar pelos vales. Era hora de acender a lenha da fogueira, ao centro, meticulosamente preparada pelo anfitrião.

O chamane vestido a rigor, pediu às cerca de 30 pessoas à volta da fogueira para escrever num papel do que é que se arrependiam de ter feito durante aquele ano e em outro pedaço de papel o que desejavam fazer de diferente para o próximo. Depois, pediu para dobrarem cada um dos papéis e os colocarem num pano grosso e colorido com padrões andinos aberto no chão. Em seguida, colocou umas plantas dentro, dobrou e fechou o pano com uma corda e mandou toda a gente levantar-se e virar-se de costas para a fogueira. Foi então que em voz alta, começou a soltar palavras em Quechua ao vento, que ecoaram e vibraram dentro de mim e pelos Apus, as montanhas em redor. Lembro-me que foi um ritual marcante e percebi mais tarde que o guia do ritual, colocou o pano sagrado com todas aquelas palavras escritas a arder nas chamas, enquanto se dirigia aos 4 pontos cardeais à nossa volta. Fez-se silêncio por momentos e o crepitar do fogo junto com o silvar do vento, levou-me a lugares pouco visitados dentro de mim. Quanto aos outros participantes uns estavam sérios, outros só sorriam, outros soltavam lágrimas enquanto sorriam. Quanto ao chamane, sinto que simbolicamente queimou o que era para transmutar e no final mandou as cinzas aos arbustos próximos como fertilizante para brotarem os novos movimentos e sentimentos.

Talvez desde aí, Solstícios e Equinócios sempre me inspiram à pausa, a momentos de escrita reflexiva.

Há situações que só as percebemos e podemos dar-lhes respostas condizentes, quando a mente se acalma. Em conversa espontânea com amigos hoje pela manhã, conversávamos sobre o quão importante e edificante é escrever regularmente o que se sente. Escutar as vozes internas como se fossemos sociólogos de nós mesmos, principalmente nestas fases de mudança de estação, que não deixa de ser também um momento de renovação dentro de cada um de nós. Examinar o que fomos, somos e o que queremos ser. Falar de futuro é também falar de presente, porque é estando atento ao hoje que se constrói o futuro.

Ao longo de milhares de anos, já se percebeu que é comum a diversas tradições e povos a ligação sagrada a estes momentos anuais de celebração, recolhimento, reflexão e abertura a novas experiências. Nesse sentido, vi-me instintivamente a questionar-me como estou neste momento, como estou a tratar os outros e o que estou a fazer com o que venho aprendendo.

Sentei-me a escrever. Dei-me oportunidade para avaliar as minhas virtudes e reconhecer igualmente as minhas falhas, e como poderei fazer melhor numa próxima.

São momentos em que no silêncio do eu comigo mesmo, sem máscaras, sem fugir das respostas, me obrigo a perguntar se as minhas atitudes proporcionam aos outros, caras constrangidas ou sorrisos cheios e largos.

Nem sempre é fácil reconhecer quando agimos de forma impulsiva, imponderada, desajustada, mas é bom estar alerta se queremos mais paz no mundo. Perceber que perdoar e pedir perdão quando necessário fazem parte do caminho. Reconhecer os nossos erros e fazer algo acerca disso, é uma espécie de detox, do qual saímos mais leves e livres.

Também existe um outro lado do reconhecimento, que quando não bem resolvido dentro de nós, pode afastar-nos do tesouro que é a paz interior. Aquele em que se espera ser-se reconhecido pelos seus feitos. Parece uma tendência da humanidade e eu incluo-me neste grupo naturalmente.

Uma das frases que refleti e escrevi acerca hoje, é uma máxima estóica que diz que não devemos depender do reconhecimento dos outros para ser felizes. Fazer o que é certo, mesmo que ninguém veja, já é a verdadeira recompensa.

Quem é que às vezes não tem necessidade de uma palavra agradável a seu respeito? Mas os estóicos dizem que devemos aprender com as situações da vida, com toda a gente, mas não depender daquilo que não controlamos para ser felizes. E na maioria das vezes a opinião do outro parece ser mais importante no nosso teatro mental do que aquela que temos de nós mesmos.

Os estóicos ensinavam que somos responsáveis pela nossa vida. Mesmo em situações aflitivas externas que não podemos controlar, existe sempre um espaço interno que podemos controlar, que é a forma como podemos reagir a esse acontecimento. Segundo esta filosofia, não são as situações ou as opiniões que nos fazem felizes ou infelizes, mas a interpretação que delas fazemos. E dependendo disso iremos reagir de formas mais sensatas ou ser guiados pelos impulsos e pelo nervosismo.


Eu vejo-me a policiar o meu julgamento interno sobre opiniões deste e daquele, sobre isto e aquilo para não viver isolado, para aprender com o outro, mas também a dar momentos de silêncio para não me tornar escravo das linguagens da mente, dependente da opinião dos outros para estar bem.


Às vezes são apenas divagações que atingem primeiro a emoção, mas necessitam ser filtradas, reflectidas, para uma melhor compreensão.

Mais uma vez constato que é quando a mente acalma que podemos reconhecer que as nossas atitudes ainda estão longe de ser perfeitas, mas que podemos sempre tentar ser melhores seres humanos.

Deixo aqui um convite / desafio final que se divide em duas partes. A primeira é fazer algo em prol de outros e não contar a ninguém. A segunda é escrever umas quantas páginas acerca de quem somos hoje e quem queremos ser daqui em diante. Não é preciso queimar o papel como o chamane, não é preciso mostrá-lo a ninguém… As perguntas e respostas são para si mesm@.

A auto-observação é uma ferramenta poderosa e pode ser um tónico para a vida que queremos ter e de certeza que nos auxilia a crescer e a alcançar mais saúde física e mental. Bons estudos.


Bruno Gonçalves (Naturopata)