Ano Novo Vida Nova - Morte Renascimento

O término de um ano e o começo de outro, supõe, para além da festa que se imagina, uma morte e um renascimento dentro de cada um de nós. Pode e deve ser uma altura de exame, renovação, transformação de hábitos menos saudáveis e abarcar novos horizontes no sentido de nos tornarmos pessoas mais felizes, mais altruístas, com menos expectativas e exigências em relação aos outros e procurar explorar, por outro lado, todo o potencial humano inerente a cada um de nós da maneira mais coerente e abrangente que nos for possível.

 

Com toda esta estória acerca do fim do mundo em 21,12.2012, ouvindo e participando em conversas e palestras sobre o assunto, vim a aperceber-me mais concretamente do medo que existe acerca da morte e da não crença por muitos, de uma continuação da vida após esse estado.

Acredito que existem várias mortes e renascimentos dentro desta mesma encarnação em que me encontro, mas também acredito pelo que venho estudando e sentindo, que a morte, tal como o término de um ano, é como uma troca de roupa que envelheceu. Não acredito que seja um fim absoluto mas que existe uma continuação, um renascimento, tal como um ano se torna novo após o dia 31. Senão fosse assim, se o espírito não pudesse evoluir para outros patamares, mesmo depois da morte física, qual seria a lógica? Na minha opinião não faz sentido ser de outra forma. Tendo isto em conta e por achar importante para a Vida do nosso planeta e das gerações futuras, quero nesta altura de Ano Novo Vida Nova, perguntar a cada um de vocês: Quem acredita na Reencarnação?

Achei interessante e pertinente um excerto de um livro intitulado: “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” de Sogyal Riponche que aprofunda este tema e quero partilhá-lo aqui para um melhor entendimento da questão:

“Apesar de todas as suas conquistas tecnológicas, a sociedade ocidental moderna não tem uma compreensão real da morte ou do que acontece durante ou depois dela.

Todas as grandes tradições do mundo, incluindo o cristianismo, dizem explicitamente que a morte não é o fim. Todas falam em algum tipo de vida futura, o que infude em nossa vida atual um sentido sagrado. Mas, não obstante esses ensinamentos, a sociedade moderna é em larga escala um deserto espiritual em que a maioria imagina que esta vida é tudo o que existe. Sem qualquer fé autêntica numa vida futura, a maioria das pessoas vive toda a sua existência destituída de um sentido supremo.

Cheguei à conclusão que os efeitos desastrosos da negação da morte vão muito além da esfera individual: eles afectam o planeta inteiro. Crendo basicamente que esta vida é única, as pessoas do mundo moderno não desenvolveram uma visão a longo prazo. Assim, nada as refreia de saquear o planeta em que vivem para atingir as suas metas imediatas, e agem com um egoísmo que pode tornar-se fatal no futuro.

Um ministro brasileiro do Meio Ambiente, responsável pela floresta amazónica disse em tempos:

“A moderna sociedade industrial é uma religião fanática. Estamos derrubando, envenenando e destruindo todos os sistemas vivos do planeta. Estamos assumindo dívidas que os nossos filhos não poderão pagar… agimos como se fossemos a última geração do planeta. Sem uma mudança radical no coração, na mente, na visão, a Terra se extinguirá como Vénus, calcinada e morta.”

O medo da morte e a ignorância sobre a vida após a morte, estão alimentando essa destruição do meio ambiente que está ameaçando tudo em nossas vidas. O mais perturbador nisso tudo não é o facto de que as pessoas não recebam instrução sobre o que é a morte ou como morrer. Ou que não tenham esperança alguma no que vem após a morte, no que está por trás da vida. Pode alguma coisa ser mais irónica do que a existência de jovens altamente qualificados em todos os campos de conhecimento, excepto naquele que detém a chave do sentido global da vida e talvez até da nossa sobrevivência?

Sempre me intrigou que alguns mestres budistas fizessem uma simples pergunta às pessoas que se aproximavam deles procurando ensinos: Você acredita numa vida depois desta?

Não se trata de saber se a pessoa acredita nisso como uma proposição filosófica, mas se sente isso no fundo do coração. Um mestre sabe que, se alguém acredita numa vida futura, sua visão do mundo será diferente e terá outro sentido de responsabilidade e moralidade pessoal.

O que os mestres suspeitam é que aqueles que não tem uma crença firme numa vida após a morte, vão criar uma sociedade fixada em resultados a curto prazo, sem qualquer preocupação com as consequências dos seus actos. Será essa a principal razão pela qual criamos um mundo brutal como este em que vivemos, um mundo em que a verdadeira compaixão está quase ausente?”

Penso que este texto escrito nos anos 90, continua bastante actual. Sinto, que a nossa sociedade precisa despertar para estas e outras questões que a façam ponderar mais acerca da continuidade da vida após a morte física, o amor ao próximo, da coragem por empreender novas ideias baseadas na cooperação e não tanto na aniquilação de culturas, valores e princípios.

Que neste novo ano, em todos os pontos do globo, sejamos capazes de deixar morrer velhas ideias, preconceitos e desrespeitos e com isso renascer, reinventarmo-nos, tolerarmo-nos, crescer e frutificar esta árvore de raiz amarga, mas de fruto doce que é a paciência e com isso, sermos catalizadores de união e boa-aventurança.

Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.

Sejamos verdadeiramente gratos pelo milagre da Vida, fazendo a nossa parte e contribuindo para que as gerações futuras possam viver e fazer a deles. Um excelente ano de 2013 para todos nós.

Bruno Gonçalves